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terça-feira, 7 de abril de 2015

"A Minha Insignificância" Ou "A Pré Crise Existencial"

Por Lucas Salles

Somos mais de sete bilhões de pessoas no mundo. Sete bilhões. É gente para um caralho. Mulheres, homens e petistas. Homossexuais, héteros e anarquistas. Flamenguistas, vascaínos e analistas de sistemas. Há diversos gêneros para catalogar.

Eu, certamente, devo estar num desses “grupos” onde nos dividem por cor, raça e credo. Mas eu queria ser muito mais do que isso. Talvez eu consiga. A única coisa que eu já tenho em mãos (além de calos causados pela masturbação excessiva) é a minha insignificância neste lugar chamado “Mundo”. Também conhecido como “brasilsão de meu Deus”.

Eu sou um nada. Sou um “porra nenhuma”. Nunca plantei uma árvore, nunca ajudei uma velha a atravessar a rua e nunca pulei de paraquedas. Não que essas coisas façam efeito e dêem sentido para a minha existência, mas, eu realmente ainda não fiz nada que pudesse melhorar a vida dos outros.
Porquê, na minha opinião, tem que haver alguma razão para dividirmos esse mundo (também conhecido como “brasilsão de meu Deus”) com mais sete bilhões de pessoas. Você (e eu também sou!) é um grão de areia no meio da praia de Praia Grande. Você ( e eu também) é um “porra nenhuma” no meio de uma grande “Porra Nenhuma”.

Procuremos sentido para nossas vidas, queridos. Procuremos sentido para sentir!
De que adianta termos uma vida (seja ela boa ou ruim, foda-se) se não a vivemos? Vamos acordar. Somos todos insignificantes. Claro! Mas, se juntarmos todas as nossas insignificâncias (neste caso, seria só “insignificância”, pois, resumida, torna-se geral) seremos um bando de insignificantes querendo ser significantes! Os que vão às ruas protestar por seus direitos são, na verdade, um bando de insignificantes que querem ser significantes na mudança do país (também conhecido como “brasilsão de meu Deus”). E eles estão certos? Certos para um caralho! Se tem uma coisa que eles estão, esta coisa é “certa”. Absoluta.

E os que se dedicam para ajudar os outros? São insignificantes fazendo a significância na vida de alguém. E os que ensinam? São insignificantes que são o significado de “significância”. Estes também se tornam insignificantes significantes. São os que doam sua vida e seu precioso tempo para fazer a significância na vida de alguém.

Na minha singela opinião, somos todos insignificantes que podem (e devem!) ser significantes para alguém/algo. Urgente. Temos o poder em mãos. Somos cavalos de raça alados. Somos mais forte do que imaginamos. Muito mais fortes. Limite é uma coisa que botam na sua cabeça. Que nem chifre. É só tirar.

E por mais que você pense que é um nada, saiba que você pode fazer tudo. Tudo que sempre te disseram que você não conseguiria, você consegue. Não é segredo, não. É verdade.
Quer ser médico? Você consegue. Quer ser ator e trabalhar na Globo? Você consegue. Quer ser presidente dos EUA? Você consegue. Seja significante para a sua própria vida. Desse jeito, você será significante para os outros.

Não deixe que a verdade, a nossa insignificância, te derrube. Seja significante e faça a porra da diferença.


São sete bilhões de pessoas mas você é você.


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Falta educação ambiental

Há momentos na vida do escritor, poeta, crítico literário, articulista e jornalistas especializados em determinadas áreas, que batem uma danada dúvida que o faz parar para refletir e, alguns ficam até em dúvida de quem apareceu primeiro, se o ovo ou a galinha. Eu realmente não chego a ser radical, como já disse em artigos anteriores, o que não gosto na vida pública é da corrupção, funcionários públicos que não se lembram de onde saem seus salários, pequenos, médios ou grandes, mas que garante a sobrevivência deles e de suas famílias. Nem todos, é claro, recebem mal os usuários que devem atender com presteza e eficiência, afinal, toda regra tem uma exceção.
Tenho ficado indignado com algumas falhas na administração atual, não concordei, é claro, com o argumento do presidente da Câmara Municipal na edição de ontem ao ler sua afirmativa de que só iria administrar a Casa de leis, sem se importar com mais nada, isso nas entrelinhas. Ora bolas, o presidente de uma Casa legislativa, foi eleito para legislar, se ele vai ou não administrá-la, é outra questão. Seus adversários irão cobrá-lo e seus aliados também, com certeza, caso contrário deve ele pegar seu chapéu, tirar umas férias e ir ler as filosofias de Platão, Sócrates ou do velho senador Cícero da antiga Roma, quem sabe ele aprende um pouquinho sobre democracia.
Não foi Confúcio que disse, mas eu mesmo: Há gosto para tudo, os chineses gostam de tomar sopa feita com os ninhos das andorinhas, material retirado de altos penhascos e vendidos a peso de ouro. Outros preferem a Dilma Rousseff como presidente do Brasil, o Evo Moralles presidente da Bolívia e, até o Nicolás Maduro na Venezuela, fazer o quê, não? Cada um elege quem quer, seja em país tido como democrático ou não.  E depois somos obrigados a ficar engolindo sapos até a próxima eleição. Durma com um barulho desses…
Sobre Meio Ambiente, já que a Secretaria responsável não aparece, mas que tal o senhor prefeito pegar os assessores do seu gabinete e ir, apenas uma vez, nas margens da represa municipal, nosso maior cartão postal. Lá ele poderá ensinar os pescadores, transeuntes e todos que lá vão para admirar e passar horas magníficas relaxando nas sombras das árvores, mas sem jogar latinhas, saquinhos de papel, bitucas de cigarros, restos de embalagem de comida e outras porcarias mais? Quem pode manda, quem não sabe trabalhar pega o chapéu antes que o patrão desconfie e se manda.
Deixando os aspones de lado, que não sabem assessorar ninguém, quero parabenizar a administração municipal de Rio Preto e a de Araçatuba, idem, pelo belo trabalho de reformas e ampliação e construção que estão realizando nas UBSs – Unidades Básicas de Saúde – que atuam dignamente sob a batuta desses dois administradores. Só peço uma coisa a ambos, plantem árvores na frente e ao redor, gastem um pouquinho mais no paisagismo e, não se esqueçam de aumentar as vagas para veículos de pacientes idosos ou com deficiência. É muito comum chegar às UBS e ver carros tomando estes lugares sem os respectivos cartões que identificam esses velhos usuários que são obrigados a parar seus veículos distantes dos prédios deste setor de saúde pública.
Por isso, minha Santa Tambura e o filósofo Zé Praxedes pediram para eu ficar por aqui mesmo. Vou! Fui! Inté!
Vismar Kfouri – jornalista, escritor e ambientalista.

sábado, 10 de maio de 2014

O Brasil dos ressentidos


O ressentimento, a amargura e a inveja tomam conta de um número cada vez maior de pessoas. Depois de uma década e meia de um discurso ininterrupto sobre felicidade e, realização profissional como perspectiva de conquista material, o resultado é uma legião sem tamanho de gente infeliz.

As redes sociais viraram o palco principal onde estas gentes todas destilam seus rancores, ressentimentos e atiram contra todos aqueles que possam ser alvos de seus ataques. Vivendo uma vida marcada pela defasagem entre o que se quer e o que se tem ou; ainda, entre a expectativa e a realidade, o resultado é um sentimento difuso de desilusão, mágoa, tristeza e raiva que precisa ser destilado contra quem se imagina ser culpado, ou, estar vivendo a vida que imagino deveria estar vivendo.

É nesse sentido, que a classe política transformou-se na latrina onde todos defecam seus piores sentimentos. Evidentemente que os políticos são ruins mesmo, tais quais dizemos que são, com as exceções de praxe, mas essa é apenas uma parte da verdade. A outra parte é que os políticos são aquilo mesmo que é a massa de onde saíram.

É extraordinário que a classe política possa ser tão ruim, que haja um sentimento generalizado na população contra ela, que o desejo seja que tudo mudasse, mas nada muda. É incrível. Como pode que todos queiram que os políticos sejam outros e, eles continuam os mesmos? A explicação é que a crise não é da política, a crise é da sociedade brasileira; a crise é da cultura nacional, da falta de ética e moralidade que campeia todos os extratos da população de alto a baixo, ricos e pobres, letrados e ignorantes, religiosos e ateus; a grande mídia e a mídia pequena, a impressa e a virtual.

Existe um pacto tácito, silencioso e medíocre entre todos, no sentido de apenas afirmar a podridão da política. A política é a Sodoma e Gomorra, o lugar onde se encerra todo o mau, toda sujeira, tudo o que é asqueroso e vil. Existe um ardil psíquico nessa acusação de mão única contra a política, é a dificuldade, a imaturidade, a incultura, a apatia e a incapacidade de se reconhecer que, é a sociedade brasileira, no seu presente, que está numa profunda crise de valores, de um norte que a guie.

O roubo, a falta de ética, a malversação com dinheiro público e privado, a malandragem, o caixa dois nas empresas, a sonegação de impostos, a falta de compromisso com o próprio trabalho, o desleixo e o descompromisso (as obras da Copa são a expressão em grande escala do jeitinho irresponsável da nação com seus compromissos), a falta de respeito pelo outro nas ruas, expostas todos os dias no uso ilegítimo de vagas nos estacionamentos, dos carros parados sobre calçadas, filas, o barulho ensurdecedor de carros de som, o encantamento com o ilícito praticado por amigos e familiares e, comemorados nas festinhas íntimas, o sem número de pequenas corrupções, os produtos roubados em bares e lojas, contas em padarias e cafés que não se pagam, enfim. A lista é imensa.

Estamos mergulhados numa crise de valores e de sentido que afunda a todos. Apontar a política como o mau que precisa ser combatido é apenas adiar a verdade de que somos o solo fértil, a cultura malandra, ociosa, preguiçosa, covarde e ressentida de onde saem os políticos que amamos odiar.


Cada povo tem os governantes que merece; nunca imaginei que fosse concordar com isso, mas é uma franca verdade. 

quinta-feira, 27 de março de 2014

Coração de David ainda bate em nós

Desde pequeno os meus pais me contavam as histórias de Davi, que venceu o gigante Golias. Tanto que foi com esse título: “David vence Golias mais uma vez”, que contei a história de David Herique Bellei, de apenas dois anos e nove meses – na época com um ano e nove meses, e que tinha passado por um transplante de coração para sobreviver.

A escrita do nome pode ser diferente, mas a pronuncia e a história de vida tem algo em comum. David o rei de São Caetano ou Davi (em hebraico) é reconhecido literalmente por ser um homem “querido” e “amado”. O David de Rio Preto, mesmo com um ano e alguns meses de idade também foi uma criança querida e amada. Sem ao menos perceber, precisou vencer o “Gigante Golias” para continuar lutando para sobreviver.

Outra coisa que também chama a atenção é o significado do nome David: “um cara apegado à família que possui um senso maternal muito forte, e o tipo de pessoa que gosta de se sentir útil e necessário, com isso, assume mais responsabilidades do que realmente pode suportar”.


É, não tem como negar que esse significado tem tudo a ver com o grande David de Rio Preto. Desde muito pequeno assumiu responsabilidades que só ele conseguiria suportar. Foi uma criança muito apegada a sua mãe, Suluelen Bellei e toda a família, e podemos dizer com toda clareza que foi útil para a sociedade, principalmente pra mim, que aprendi dar valor na vida ao ver o sorriso de David, quando saia do hospital pela primeira vez.

Pelo visto, David gosta de voar. O seu coraçãozinho foi trazido de Botucatu, pelo helicóptero Águia. E agora, está voando no céu, em um lugar tão alto que só as pessoas com grandes corações poderão estar.


O seu coração parou de funcionar ontem. Mas David, você estará no meu coração para sempre. Descanse em paz.

Leia a matéria completa sobre David Henrique Bellei, no JORNAL DHOJE.


sexta-feira, 21 de junho de 2013

Análise: Silêncio de presidente resume ausência de ação dos políticos

Li a análise do jornalista da Folha de São Paulo e "pra mim", é uma das mais completas até agora. Leia e de sua opinião sobre:

FERNANDO RODRIGUES
DE BRASÍLIA

No dia em que o Brasil e Brasília protagonizaram os mais abrangentes protestos de rua das últimas décadas, a presidente da República ficou muda no Palácio do Planalto e o governador do Distrito Federal foi a um evento na Embaixada da França.

Dilma Rousseff e Agnelo Queiroz (PT) são o epítome dos governantes brasileiros. Resumem a perplexidade e falta de capacidade de liderança dos políticos de vários partidos diante do novo fenômeno de protestos sem líderes nem propostas definidas.

Tanto a presidente como a maioria dos governadores formataram um discurso com três componentes. Primeiro, elogiam a democracia. Segundo, enaltecem os atos pacíficos. Terceiro, condenam as ações de vandalismo.

Para uma onda moderada de protestos, esse tipo de abordagem funciona. O político fica bem com a opinião pública e com a parte "domesticada" das manifestações. Os custos de eventuais depredações são moderados. O transtorno é passageiro.

Mas no caso da avalanche atual de manifestações, a presidente e vários governadores não explicam o que pretendem fazer se os protestos continuarem. Parecem, a rigor, estar apenas torcendo para o tsunami passar.
Só que os protestos são resilientes. Os governantes estão aprisionados a um estado de catatonia. Nesse cenário, passam a ser normais as cenas de fogueiras na Esplanada dos Ministérios como as de ontem à noite.

Com passado de esquerda, Dilma sente dificuldades para adotar um discurso crítico aos efeitos dos protestos. Ela teme ser interpretada como autoritária e a favor do que estão combatendo na rua.

Ocorre que as principais cidades estão com suas vidas semiparalisadas há quase duas semanas. Haverá prejuízos econômicos. Dilma não sabe qual resposta oferecer. Quando a onda passar, há um risco enorme de a conta acabar espetada na taxa de popularidade da presidente e de seus colegas governadores.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

"E aí, bora para noitada???


Achei esse texto nos compartilhamentos diários do Facebook. Acredito que o rapaz conseguiu traduzir algumas observações minhas em baladas. Leia e faça o seu comentário sobre...
"E aí, bora para noitada ???


Primeiramente, você chega na balada e observa que metade das mulheres estão com um vestido de elástico, já a outra metade está com uma regata branca ou top e por cima uma blusa fina, junto com uma saia alta ou short customizado.
Usando o insistente perfume 212, Angel e Light Blue. Mas até aí tudo bem pois o uniforme faz parte. Não muito distante disso você vê alguns homens com uma camisa polo com “número 43” nas costas e um cavalo gigante no peito, perfume one million e a barriga saliente, com as mulheres mais bonitas da festa. Alguns gastando dinheiro que não tem, outros gastando por gastar e outros como eu agora, pensando em como funciona tudo isso… Nesse instante por algum motivo você se sente diferente daquelas pessoas. Culturalmente instruídos a sempre segurar um copo na mão seguimos o nosso caminho em busca de algo que no fundo não sabemos se realmente faz sentido.
Alguns caras querendo se divertir e outros numa disputa inútil para ver quem é o mais frouxo. Frouxo simplesmente por não conseguir pegar uma mulher só com o papo, por não saber jogar esse jogo de homem pra homem, mas novamente até aí tudo bem..pois cada um usa e atira com as armas que tem.
Em meio a tudo isso, me pergunto: onde está a conquista?
Cadê o charme?
O ato de arrancar um sorriso sincero, de você?
Ficar com a mulher por ter falado a coisa certa na hora certa, sem sensacionalismo.
Só acho que as coisas estão perdendo um pouco da graça. Então depois de consecutivas experiências dessas, você acaba vendo que o mundo de balada é muito limitado e o mais importante, que o que você tanto procura, não está e nem estará ali.

De forma alguma estou dizendo que não gosto de balada, ou que balada é algo de pessoas “vazias”, mas infelizmente na maioria das vezes é isso que eu vejo, mulheres que só querem levantar seu ego e homens que acham que baixar um litro de bebida lhe faz ser o macho "top" da festa.
Cada vez mais as pessoas têm a necessidade de mostrar ser uma coisa que não são, e principalmente terem seu ego exaltado.
Agora só falta elas perceberem que isso não leva a lugar nenhum.

Chegamos num ponto chave da sociedade, onde máscaras valem mais do que expressões, garrafas de bebida em cima da mesa valem mais do que apertos de mão e companhias falsas valem mais do que uma conversa sincera com a menina menos atraente da festa.

Por fim entenda que você pode ser uma pessoa super charmosa, educada, inteligente ou qualquer outro adjetivo, mas se a outra pessoa não for equivalente, ela não irá perceber o quão valiosa você é.

Ficarei em casa hoje rs"


Autor: Desconhecido


segunda-feira, 1 de abril de 2013

O Furo (de reportagem)


Bons tempos aqueles em que a maior glória de qualquer jornalista era dar furo na concorrência. Esse, aliás, não era prazer único daqueles que atuavam nos grandes jornais e nas emissoras de rádio e televisão de ponta da capital, mas também de quem trabalhava em veículos de todos os tamanhos nos mais distantes rincões da Pátria. Muitos foram os que se fizeram jornalistas aprendendo a importância da boa notícia, aquela bem apurada, bem escrita e por isso bem dada. Coisa que nos tempos modernos, o da volúpia de quem abusa das redes sociais e da total ausência de responsabilidade com a informação, parece já não ter a mínima importância.

Internet era assunto de visionários, coisa futurista que hibernava nos laboratórios de pesquisa e nas cabeças dos gênios que se dedicavam a uma nova ciência, a informática. As oficinas gráficas mais modernas já haviam substituído os tipos móveis de Gutenberg pela composição a quente, mas nas redações o máximo que se via dessa modernidade era a chegada das novíssimas Olivetti Línea 98, que vieram substituir as mais velhas, como a Lexicon 80, minha companheira de tantos anos. Eu adorava essa pequena notável, pesada, com estrutura de metal – a que, de longe, melhor aguentou o batente pesado das redações. Salete, minha mulher, a chamava de “a outra”, alegando que eu passava mais tempo com a velha máquina do que com a própria esposa.

Aqueles não eram tempos fáceis. Em 1978 vivíamos sob o tacão de uma ditadura que fazia jus ao nome, principalmente devido ao controle da informação e à repressão imposta aos informadores que ousavam escrever ou falar com independência. Entretanto, o regime militar já sinalizava no horizonte com a possibilidade de dar início à distensão, o que nós, jornalistas, víamos como uma luz surgindo no fim do túnel.

Nessa época eu tocava o Jornal da Cidade, de Jundiaí, depois de suceder a Waldemar Gonçalves na Chefia de Redação, e fazia frilasdomingueiros para a Edição de Esportes do falecido JT. Foi nesse tempo que comecei a cultivar um sonho: atravessar o corredor do 6º andar e ir trabalhar na redação do Estadão. O que acabaria fazendo em julho de 1979, convidado para cobrir férias na editoria de Interior, chefiada por Ademar Orichio, um dos melhores amigos que conquistei na minha passagem pelo jornal da família Mesquita.

Voltando ao JC, Sandro Vaia, um dos seus criadores, ao dar-lhe vida o transformara numa espécie de clone gráfico do Jornal da Tarde, onde trabalhava. O concorrente – o mesmo de ainda hoje – era o Jornal de Jundiaí, o JJ, e a disputa diária pelo mercado e pela notícia beirava as raias de uma guerra. Quem trabalhava num, odiava o outro. Dificilmente alguém trocava de camisa, foram raros os casos ao longo daqueles tempos.

Orgulha-me dizer que foi nas minhas mãos que o diário comandado por Pedro Geraldo Campos e Gustavo Maryssael de Campospassou por uma grande transformação. O projeto que comandei lhe deu as condições necessárias para levar aos seus leitores – os de banca e assinantes – um produto de qualidade bastante aceitável. Como, por exemplo, a implantação de um novo parque gráfico, que entre outras melhorias ganhou uma impressora offset. Com ela, o tempo de rodagem da edição – que nos dias de semana chegava a 20 mil exemplares e a até 30 mil aos domingos – foi reduzido de várias horas para no máximo 40 minutos. Isso nos permitia trabalhar com um fechamento em que o deadline podia avançar até alta madrugada.

As mudanças incluíram também a redação, cuja modernização, entretanto, devido ao momento político, não foi além de algumas novidades tecnológicas, pois os computadores eram ainda um sonho distante e pensar livre ainda não era um livre pensar. Entretanto, as matérias eram agora compostas não em linotipos e sim em máquinas eletrônicas IBM, com a incrível capacidade – pasmem!!! – de armazenar até seis mil caracteres na memória.

Outra novidade foi a instalação de um telex, que abastecia a redação com o noticiário nacional distribuído pela Agência JB e o internacional, pela Associated Press. Isso permitiu que aposentássemos o rádio-gravador, com o qual capturávamos o Grande Jornal Falado Tupi para podermos “chupar” e copidescar as notícias mais importantes de fora de Jundiaí. Com tamanha folga no deadline, podíamos nos dar ao luxo de fechar a edição altas horas, pois o ganho de tempo com a impressão garantia o compromisso de o jornal ser entregue aos assinantes sempre antes das 5 horas da manhã.

Numa dessas madrugadas estávamos à espera de uma matéria sobre jogo do Paulista de Jundiaí, o time de futebol profissional da cidade, que o saudoso Sidney Mazzonni fora cobrir no interior. A foto e um texto de não mais que 20 linhas tapariam o buraco aberto na página 8.

Enquanto o repórter não chegava, de vez em quando eu ia ao telex ver se pintara alguma notícia interessante. Mas nada que merecesse reabrir a edição. Na metade da madrugada desse dia, 28 de setembro de 1978, lá pelas 3 e tanto, a notinha de meia linha, carimbada de urgente, me chamou a atenção: “Morreu o papa João Paulo I. Mais informações em instantes”. Instintivamente, chamei José Luiz, o Marrom, secretário-gráfico e clicherista do jornal, e pedi que removesse do past-up a manchete sobre um acidente de trânsito e abrisse espaço para uma nova.

Nesse meio tempo Mazzoni chegou, escreveu a matéria de esportes, fechou a 8 e veio me ajudar na mudança da 1ª. Mas o deadlineestava no limite, não dava para esperar por muito mais informações e o máximo que fizemos foi uma manchete: “Morre Paulo 1º, papa por um mês”; e sob ela, um olho: “Oriundo de família humilde, o ex-cardeal de Veneza, Albino Luciani, empossado chefe da Igreja Católica, Apostólica, Romana em 26 de agosto passado, nasceu em Forno di Canali em 17 de outubro de 1912. Foi o primeiro papa nascido no século XX e também o primeiro a usar um nome composto”.

Naquele dia pude sentir o verdadeiro prazer proporcionado pelo bom jornalismo. Numa época em que o telex e o telefone eram apenas os mais evoluídos ancestrais de meios de comunicação instantâneos dos tempos atuais, como MSN, Twitter e Facebook, furamos o JJ e só isso já era apoteótico. Mas é bem provável também que a manchete do Jornal da Cidade tenha-se transformado num furo nacional. Desmintam-me se estiver errado...

Por Plínio Vicente da Silva /Portal dos Jornalistas



segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

O “vilão” ganha mais uma vez


É notório que o povo brasileiro é otimista, mas os fatos atuais os contrariam. Um país que coloca Renan Calheiros no Senado pode ser considerado sério? Pode ser considerado em ascensão?  É importante refletirmos isso, afinal, fomos nós que colocamos as pessoas que votaram nele para comandar o legislativo.

Denunciado pelo procurador-geral da República ao Supremo Tribunal Federal (STF), por peculato, falsidade ideológica e desvio de dinheiro público, o senador Renan Calheiros (PMDB-AL), nunca poderia ter sido eleito como o novo presidente do Senado, como ocorreu em 1º de fevereiro. Iniciamos o mês da festa e da farra, com uma grande bagunça no Senado Federal.

Antes da votação, o novo presidente falou em ética. “A ética, senhor presidente e senhores senadores, é meio e não fim. A ética é obrigação de todos nós”, discursou.

Ética está associada ao estudo fundamental dos valores morais que orientam o comportamento humano em sociedade, enquanto a moral são os costumes, regras, tabus e convenções estabelecidas por cada sociedade. Fica a grande pergunta: um homem que está sendo julgado por desvio de dinheiro público, falsidade ideológica e peculato pode ser considerado ético? Nunca o senador poderia ter tocado nessas palavras, pois seus significados são fortes, mas o comportamento do ilustre presidente não é. Pois quem é acusado de crimes dessa natureza, não poderia falar em ética.

Comentamos sobre o esquecimento no editorial de ontem. Há seis anos Renan Calheiros deixou a presidência do Senado pelas portas do fundo, mas devido ao esquecimento da população, ou melhor, dos governantes, ele volta pela porta da frente. E nós que saímos perdendo.

Editorial do jornal DHoje de domingo, dia 03, escrito por "mim".

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Que a tragédia de Santa Maria nos alerte e nos previna


Fui convidado para escrever o meu primeiro editorial escrito para o jornal DHoje. Olha só o que saiu: 

Precisava acontecer essa tragédia para começar a correria dos empresários por extintores em Rio Preto, conforme foi publicado no DHoje de ontem? Esse equipamento não é de suma importância para um estabelecimento? Precisava acontecer a morte de 236 jovens em uma boate para a Prefeitura e o Corpo de Bombeiros começarem a fazer varreduras nas casas noturnas?

As prefeituras de uma maneira geral e os Corpos de Bombeiros não têm equipe técnica em números suficientes para conseguir dar conta de fiscalizar tudo. É preciso que cada cidadão também faça a sua parte. Se você tem um estabelecimento ou uma empresa, é o seu dever estar de acordo com a lei. Procurar renovar os alvarás, recarregar os extintores. Afinal, é a tua vida, a vida da empresa e dos demais funcionários que estão em jogo. Não adianta querer deixar para depois ou achar que nada acontece conosco.

É difícil achar um culpado para o incêndio de Santa Maria. Mas é preciso aprender com os erros de hoje para que eles não se repitam amanhã. Todos os anos aparecem novas casas noturnas, algumas não conseguem funcionar num período de dois anos. Depois, trocam-se os nomes, fazem reformas dentro das casas e, segundo o engenheiro civil Avilson Ferreira de Almeida, presidente da Sociedade dos Engenheiros de Rio Preto, em entrevista concedida ao DHoje, a legislação para conseguir um alvará é coerente, porém o sistema de fiscalização é falho. “Não acontece um acompanhamento contínuo para saber como estão os estabelecimentos. Se houve alguma reforma, o proprietário não precisa mostrar para a Prefeitura”, diz.

Ás vezes, a administração municipal nem fica sabendo das mudanças que foram feitas dentro do estabelecimento. O proprietário, muitas vezes ganancioso, não quer gastar dinheiro para colocar novos extintores e na regularização do Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB).

Agora, quando vamos ao shopping com a família, ou no cinema ou teatro, até mesmo em algumas boates. Esses lugares não são clandestinos, estão instalados na cidade e a população imagina que os locais estejam atendendo minimamente as regras de segurança.

Pedir que as pessoas identifiquem os problemas de alguns lugares é complicado. É como levar o carro a um mecânico. Se um cidadão está levando é porque ele confia naquele profissional que vai arrumá-lo. Então, todos nós também confiamos na administração, nos fiscais, no Corpo de Bombeiros e nos empresários que têm seus estabelecimentos “regularizados”.

É importante que cada um faça sua parte, que o cidadão também observe os lugares que esteja frequentando. É fundamental observar onde são as saídas e se estão sinalizadas corretamente. Se há extintores nas paredes e não escondidos nos banheiros como publicamos na reportagem de ontem, na qual dizia que empresários acham feio o equipamento anti-incêndio pendurado.

Que essa tragédia de Santa Maria, fique nas nossas lembranças como um alerta, e que o descaso de alguns empresários e autoridades não caia no esquecimento.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Tragédia de Santa Maria logo será esquecida



Demorei um pouco, mas vou me pronunciar sobre a tragédia que matou 231 pessoas em Santa Maria (RS).  Todos estão procurando um culpado e eu acredito que exista dois: os órgãos governamentais que não fiscalizam as “coisas” corretamente e os empresários gananciosos que querem ganhar dinheiro a qualquer custo.

Digo as “coisas”, porque falo no geral. Falta fiscalização nos campos de futebol, nas boates, em algumas empresas, em tudo. Sempre há notícias falando de empresas sem alvará, isso e aquilo. É um assunto de bom-senso também. Se o empresário vai abrir uma casa noturna, tem que se prevenir. Como ouvi na Globo News: “essa tragédia é pior que uma guerra, pois a guerra não é previsível, mas isso sim.”

Há um ano, fui a um evento sertanejo em Rio Preto, que tinha mais gente do que o permitido no camarote. Pude perceber isso quando as pessoas começaram a dançar e o palco parecia balançar. Para conseguir buscar uma cerveja, era aquele tumulto. As pessoas se empurravam e eu por diversas vezes tive que falar: “calma gente, tem mulheres aqui e pessoas sendo espremidas”.
Confesso que fiquei com medo de cair. Quando freqüentei algumas casas noturnas da cidade, me questionei se acontecesse algum tumulto como as pessoas reagiriam. E não estou falando isso só pelo fato da tragédia. Diversas vezes conversei com amigos e falei e se acontecer algo, como sobreviveremos. Quem são meus amigos sabe do que estou falando.

O ministro da saúde, Alexandre Padilha informou que ainda há 118 vítimas internadas. Dentre elas, 75 estão em estado crítico e corre o risco de morte. Tomara que mais nada aconteça e que as famílias possam ser confortadas com as perdas. Muitos jovens com futuros brilhantes morreram nessa boate Kiss.

E o que mais me deixa triste é que esses erros são notórios e as irresponsabilidades são evidentes. No entanto, as apurações criminais, como são de costume no Brasil, serão esquecidas ou deixadas de lado. Espero estar errado, mas acredito que logo tudo será esquecido pelo governo e até mesmo por nós, meros cidadoas que não perdemos nenhum ente querido. Já as famílias gaúchas terão que conviver com essa dor para sempre.

Você se lembra das tragédias das chuvas no Rio de Janeiro? Então, até hoje algumas pessoas não receberam ajuda e pouca gente se importou com o fato de que milhões de reais, mais da metade tenha sido desviado. E os mesmo “governantes” que ficaram chocados com o drama carioca também ficaram com o gaúcho. A corrupção toma conta do Brasil e o “esquecimento” também.

sábado, 12 de janeiro de 2013

1964: a tentativa de refundação

Saudades de 1964. - Ideologia| O instituto Millenium é a versão contemporânea, mas não moderna, dos golpistas do passado.   

por Leandro Fortes, na CartaCapital, reproduzido pelo site do IHU

Em 1º de março de 2010, uma reunião de milionários em luxuoso hotel de São Paulo foi festejada pela mídia nacional como o início de uma nova etapa na luta da civilização ocidental contra o ateísmo comunista e a subversão dos valores cristãos. Autodenominado 1º Fórum Democracia e Liberdade de Expressão, o evento teve como anfitriões três dos maiores grupos de mídia nacional: Roberto Civita, dono da Editora Abril, Otávio Frias Filho, da Folha de S.Paulo, e Roberto Irineu Marinho, da Globo.
O evento, que cobrou dos participantes uma taxa de 500 reais, foi uma das primeiras manifestações do Instituto Millenium, organização muito semelhante ao Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes), um dos fomentadores do golpe de 1964.
Como o Ipes de quase 50 anos atrás, o Millenium funda seus princípios na liberdade dos mercados e no medo do “avanço do comunismo”, hoje personificado nos movimentos bolivarianos de Hugo Chávez, Rafael Correa e Evo Morales. Muitos de seus integrantes atuais engrossaram as marchas da família nos anos 60 e sustentaram a ditadura. Outros tantos, mais jovens, construíram carreiras, principalmente na mídia, e ganharam dinheiro com um discurso tosco de criminalização da esquerda, dos movimentos sociais, de minorias e contra qualquer política social, do Bolsa Família às cotas nas universidades.
Há muitos comediantes no grupo.
No seminário de 2010, o “democrata” Arnaldo Jabor arrancou aplausos da plateia ao bradar: “A questão é como impedir politicamente o pensamento de uma velha esquerda que não deveria mais existir no mundo?” Isso, como? A resposta é tão clara como a pergunta: com um golpe. No mesmo evento brilhou Marcelo Madureira, do Casseta & Planeta. Como se verá ao longo deste texto, há um traço comum entre vários “especialistas” do Millenium: muitos se declaram ex-comunistas, ex-esquerdistas, em uma tentativa de provar que suas afirmações são fruto de uma experiência real e não da mais tacanha origem conservadora.
Madureira não foge à regra: “Sou forjado no pior partido político que o Brasil já teve”, anunciou o “arrependido”, em referência ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), o velho Partidão. Após a autoimolação, o piadista atacou, ao se referir ao governo do PT de então: “Eu conheço todos esses caras que estão no poder, eram os caras que não estudavam”. Eis o nível.
O símbolo do Millenium é um círculo de sigmas, a letra grega da bandeira integralista, aquela turma no Brasil que apoiou os nazistas. Jabor e Madureira estão perfilados em uma extensa lista de colaboradores no site da entidade, quase todos assíduos freqüentadores das páginas de opinião dos principais jornais e de programas na tevê e no rádio. Montado sob a tutela do suprassumo do pensamento conservador nacional e financiado por grandes empresas, o instituto vende a imagem de um refinado clube do pensamento liberal, uma cidadela contra a barbárie. Mas a crítica primária e o discurso em uníssono de seus integrantes têm pouco a oferecer além de uma narrativa obscura da política, da economia e da cultura nacional.
Replica, às vezes com contornos acadêmicos, as mesmas ideias que emanam do carcomido auditório do Clube Militar, espaço de recreação dos oficiais de pijama.
Meio empresa, meio quartel, o Millenium funciona sob uma impressionante estrutura hierárquica comandada e financiada por medalhões da indústria. Baseia-se na disseminação massiva de uma ideia central, o liberalismo econômico ortodoxo, e os conceitos de livre-mercado e propriedade privada. Tudo bem se fosse só isso. No fundo, o discurso liberal esconde um freqüente flerte com o moralismo udenista, o discurso golpista e a des qualificação do debate público.
Criado em 2005 com o curioso nome de “Instituto da Realidade”, transformou-se em Millenium em dezembro de 2009 após ser qualificado como Organização Social de Interesse Público (Oscip) pelo Ministério da Justiça. Bem a tempo de se integrar de corpo e alma à campanha de José Serra, do PSDB, nas eleições presidenciais de 2010. Em pouco tempo, aparelhado por um batalhão de “especialistas”, virou um bunker antiesquerda e principal irradiador do ódio de classe e do ressentimento eleitoral dedicado até hoje ao ex-presidente Lula.
O batalhão de “especialistas” conta com 180 profissionais de diversas áreas, entre eles, o jornalista José Nêumanne Pinto, o historiador Roberto DaMatta e o economista Rodrigo Constantino, autor do recém-lançado Privatize Já. A obra é um libelo privatizante feito sob encomenda para se contrapor ao livro A Privataría Tucana, do jornalista Amaury Ribeiro Jr., sobre as privatizações nos governos de Fernando Henrique Cardoso que beneficiaram Serra e seus familiares. E não há um único dos senhores envolvidos com as privatizações dos anos 1990 que hoje não nade em dinheiro.
Os “especialistas” são todos, curiosamente, brancos. Talvez por conta da adesão furiosa da agremiação aos manifestantes anticotas raciais. A tropa é comandada pelo jornalista Eurípedes Alcântara, diretor de redação da revista Veja, publicação onde, semanalmente, o Millenium vê seus evangelhos e autos de fé renovados. Alcântara é um dos dois titulares do Conselho Editorial da entidade. O outro é Antonio Carlos Pereira, editorialista de O Estado de S. Paulo.
Alcântara e Pereira não são presenças aleatórias, tampouco foram nomeados por filtros da meritocracia, conceito caríssimo ao instituto. A dupla de jornalistas representa dois dos quatro conglomerados de mídia que formam a bússola ideológica da entidade, a Editora Abril e o Grupo Estado. Os demais são as Organizações Globo e a Rede Brasil Sul (RBS).
O Millenium possui uma direção administrativa formada por dez integrantes, entre os quais destaca-se a diretora-executiva Priscila Barbosa Pereira Pinto. Embora seja a principal executiva de um instituto que tem entre suas maiores bandeiras a defesa da liberdade de imprensa e de expressão — e à livre circulação de ideias Priscila Pinto não se mostrou muito disposta a fornecer informações aCartaCapital. A executiva recusou-se a explicar o formidável organograma que inclui uma enorme gama de empresas e empresários.
Entre os “mantenedores e parceiros”, responsáveis pelo suporte financeiro do instituto, estão empresas como à Gerdau, a Localiza (maior locadora de veículos do País) e a Statoil, companhia norueguesa de petróleo. No “grupo máster” aparece a Suzano, gigante nacional de produção de papel e celulose. No chamado “grupo de apoio” estão a RBS, o Estadão e o Grupo Meio & Mensagem.
Há ainda uma lista de 25 doadores permanentes, entre os quais, se incluem o vice-presidente das Organizações Globo, João Roberto Marinho, o ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga e o presidente da Coteminas, Josué Gomes da Silva, filho do falecido empresário José Alencar da Silva, vice-presidente da República nos dois mandatos de Lula. O organograma do clube da reação possui também uma “câmara de fundadores e curadores” (22 integrantes, entre eles o ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco e o jornalista Pedro Bial), uma “câmara de mantenedores” (14 pessoas) e uma “câmara de instituições” com nove membros. Gente demais para uma simples instituição sem fins lucrativos.
Uma das atividades fundamentais é a cooptação, via concessão de bolsas de estudo no exterior, de jovens jornalistas brasileiros. Esse trabalho não é feito diretamente pelo instituto, mas por um de seus agregados, o Instituto Ling,mantido pelo empresário William Ling, dono da Petropar, gigante do setor de petroquímicos. Endereçado a profissionais com idades entre 24 e 30 anos, o programa “Jornalista de Visão” concede bolsas de mestrado ou especialização em universidades dos Estados Unidos e da Europa a funcionários dos grupos de mídia ligados ao Millenium.
Em 2010, quando o programa se iniciou, cinco jornalistas foram escolhidos, um de cada representante da mídia vinculada ao Millenium: Época (Globo), Veja (Abril), O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo e Zero Hora (RBS). Em 2011, à exceção de um repórter do jornal A Tarde, da Bahia, o critério de escolha se manteve. Os agraciados foram da Época (2), Estadão (1), Folha (2), Zero Hora(1) e revista Galileu (1), da Editora Globo. Neste ano foram contemplados três jornalistas do Estadão, dois da Folha, um da rádio CBN (Globo), um da Veja, um do jornal O Globo e um da revista Capital Aberto, especializada em mercado de capitais.
Para ser escolhido, segundo as diretrizes apresentadas pelo Instituto Ling, o interessado não deve ser filiado a partidos políticos e demonstrar “capacidade de liderança, independência e espírito crítico”. Os aprovados são apresentados durante um café da manhã na entidade, na primeira semana de agosto, e são obrigados a fazer uma espécie de juramento: prometer trabalhar “pelo fortalecimento da imprensa no Brasil, defendendo os valores de independência, democracia, economia de mercado, Estado de Direito e liberdade”.
O Millenium investe ainda em palestras, lançamentos de livros e debates abertos ao público, quase sempre voltados para assuntos econômicos e para a discussão tão obsessiva quanto inútil sobre liberdade de imprensa e liberdade de expressão. Todo ano, por exemplo, o Millenium promove o “Dia da Liberdade de Impostos” e organiza os debates “Democracia e Liberdade de Expressão”. Entre os astros especialmente convidados para esses eventos estão Marcelo Tas, da Band, e Diogo Mainardi e Reinaldo Azevedo, ambos de Veja. Humoristas jornalistas. Ou vice-versa.
O que toda essa gente faz e quanto cada um doa individualmente é mantido em segredo. Apesar da insistência de CartaCapital, a diretora-executiva Priscila Pinto mandou informar, via assessoria de imprensa, que não iria fornecer as informações requisitadas pela reportagem. Limitou-se a enviar nota oficial com um resumo da longa apresentação reproduzida na página eletrônica do Millenium sobre a missão do instituto. Entre eles, listado na rubrica “código de valores”, consta a premissa da transparência, voltada para “possibilidade de fiscalização pela sociedade civil e imprensa”. Valores, como se vê, bem flexíveis.
Josué Gomes e Gerdau também não atenderam aos pedidos de entrevista. O silêncio impede, no caso do primeiro, que se entenda o motivo de ele contribuir com um instituto cuja maioria dos integrantes sistematicamente atacou o governo do qual seu pai não só participou como foi um dos mais firmes defensores. E se ele é contra, por exemplo, a redução dos juros brasileiros a níveis civilizados. O industrial José Alencar passou os oito anos no governo a reclamar das taxas cobradas no Brasil. A turma do Millenium, ao contrário, brada contra o “intervencionismo estatal” na queda de braço entre o Palácio do Planalto e os bancos pela queda nos spreads cobrados dos consumidores finais.
No caso de Gerdau, seria interessante saber se o empresário, integrante da câmara de gestão federal, concorda com a tese de que a tentativa de redução no preço de energia é uma “intervenção descabida” do Estado, tese defendida pelo instituto que ele financia. Gerdau e Josué se perfilam, de forma consciente ou não, ao Movimento Endireita Brasil,defensor de teses esdrúxulas como a de que os militares golpistas de 1964 eram todos de esquerda.
O que há de transparência no Millenium não vem do espírito democrático de seus diretores, mas de uma obrigação legal comum a todas as ONGs certificadas pelo Ministério da Justiça. Essas entidades são obrigadas a disponibilizar ao público os dados administrativos e informações contábeis atualizadas. A direção do instituto se negou a informar à revista os valores pagos individualmente pelos doadores, assim como não quis discriminar o tamanho dos aportes financeiros feitos pelas empresas associadas.
A contabilidade disponível no Ministério da Justiça, contudo, revela a pujança da receita da entidade, uma média de 1 milhão de reais nos últimos dois anos. Em três anos de funcionamento auditados pelo governo (2009, 2010 e 2011), o Millenium deu prejuízos em dois deles.

Em 2009, quando foi certificado pelo Ministério da Justiça, o instituto conseguiu arrecadar 595,2 mil reais, 51% dos quais oriundos de doadores pessoas físicas e os demais 49% de recursos vindos de empresas privadas.
Havia então quatro funcionários remunerados, embora a direção do Millenium não revele quem sejam, nem muito menos quanto recebem do instituto. Naquele ano, a entidade fechou as contas com prejuízo de 8,9 mil reais.

Em 2010, graças à adesão maciça de empresários e doadores antipetistas em geral, a arrecadação do Millenium praticamente dobrou. A receita no ano eleitoral foi de 1 milhão de reais, dos quais 65% vieram de doações de empresas privadas. O número de funcionários remunerados quase dobrou, de quatro para sete, e as contas fecharam no azul, com superávit de 153,9 mil reais.
Segundo as informações referentes ao exercício de 2011, a arrecadação do Millenium caiu pouco (951,9 mil reais) e se manteve na mesma relação porcentual de doadores (65% de empresas privadas, 35% de doações de pessoas físicas). O problema foi fechar as contas. No ano passado, a entidade amargou um prejuízo de 76,6 mil reais, mixaria para o volume de recursos reunidos em torno dos patrocinadores e mantenedores. Apenas com verbas publicitárias repassadas pelo governo federal, a turma midiática do Millenium faturou no ano passado 112,7 milhões de reais.


A inspiração
O Ipes e o Ibad reuniram a fina flor da reação ao governo João Goulart e foram a base dos movimentos que lançaram o Brasil em 21 anos de escuridão e atraso

As duas fontes de inspiração do Millenium datam do fim dos anos 1950, início dos 60.
Fundado em 1959, o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad) foi criado por anticomunistas financiados pela Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos, a CIA, como o primeiro núcleo organizado do golpismo de direita nacional.
0 Ibad serviu de inspiração para a instalação, dois anos depois, do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes), responsável pelo aparato midiático e propagandístico que viabilizou o golpe de 1964.

Tanto o Ibad quanto o Ipes serviram, como o Millenium, para organizar um fórum multidisciplinar, com forte financiamento empresarial, calcado no anticomunismo e na ideia de que o Brasil, como o mundo, estava prestes a cair na mão dos subversivos.
À época os alvos eram João Goulart, Fidel Castro e Cuba.
Os institutos serviram ainda como central de financiamento, produção e difusão de programas de rádio, televisão e textos reproduzidos em jornais por todo o País. 0 material era anticomunista até a raiz e, como hoje, tinha como objetivo disseminar o medo entre a população e angariar simpatia para os golpistas, anunciados como salvadores da pátria ameaçada pelos ateus e baderneiros socialistas.
Em 1962, a farra de dinheiro em torno do Ibad, sobretudo recursos vindos do exterior, começou a irrigar campanhas eleitorais e obrigou o Congresso Nacional a tomar uma atitude. Um ano depois, uma CPI foi instalada na Câmara dos Deputados para investigar a origem do financiamento. Apesar de boa parte da documentação do instituto ter sido queimada antes da ação policial, ainda assim foi possível constatar um sem-número de doações iiegais captadas pela entidade, principalmente  de empresas norte-americanas.
Em 1963, com base nas conclusões da CPI, o presidente João Goulart conseguiu dissolver o Ibad, mas era tarde demais.

Na cola de Jango continuava o Ipes, fincado na zona central do Rio de Janeiro, como o Millenium. Enquanto o Ibad se desfazia, o Ipes, presidido pelo general Golbery do Couto e Silva, conseguiu integrar os movimentos sociais ligados à direita e estendeu seus tentáculos até São Paulo. Golbery agregou à entidade mais de 300 empresas financiadoras, inclusive alguns dos gigantes econômicos da época, como a Refinaria União, a companhia energética Light, a companhia aérea Cruzeiro do Sul e as Listas Telefônicas Brasileiras.
Assim como o Millenium, o Ipes reunia empresários, jornalistas, intelectuais e políticos, principalmente da conservadora UDN. Durante a ditadura, o instituto ficou responsável pela produção de documentários ufanistas. Fechou as portas em 1972, quando os generais da linha-dura decidiram que não precisavam mais de linhas auxiliares para manter o regime de pé.

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domingo, 9 de dezembro de 2012

Jornalista não é trabalhador. Ou pensa que não é

De tempos em tempos, nós – jornalistas – somos surpreendidos com notícias de demissões coletivas em veículos de comunicação. Atos que foram batizados carinhosamente de “passaralhos” (imaginem o porquê). Não vou discutir as razões que levam à dispensa de colegas de profissão – os motivos dos “ajustes” vão desde a justa necessidade de sobrevivência do próprio veículo (fazer bom jornalismo pode ser caro) à maximização de lucros da empresa. Então, para não ser leviano, precisam ser analisadas caso a caso. Vou me ater ao outro lado do balcão, ou seja, como reagimos a isso. Até porque, após a atual leva de demissões, não fiquei sabendo de nenhum ato de solidariedade aos demitidos. Talvez pelo medo de também perder o emprego, talvez pela sensação de impotência que resulta da lenta e contínua acomodação, talvez por algo maior que isso.
Trago aqui uma discussão já travada com os leitores. Nós, jornalistas, muitas vezes não nos reconhecemos como classe trabalhadora. Devido às peculiaridades da profissão, desenvolvemos laços com o poder e convivemos em seus espaços sociais e culturais, seduzidos por ele ou enganados por nós mesmos. Só percebemos que essa situação não é real e que também somos operários, transformando fato em notícia, quando nossos serviços não são mais necessários em determinado lugar.
Ou, às vezes, nem isso. Já vi colegas se culparem por terem sido demitidos sem justa causa no melhor estilo “perdoa-me por me traíres” de Nelson Rodrigues. “Deveria ter virado mais madrugadas na redação”, “deveria ter me oferecido para trabalhar em todos os finais de semana”, “não deveria ter corrigido o português ruim do meu chefe”…
Fazer protestos por melhores condições, que incluem uma certa estabilidade para reportar sem temer o que se escreve? Imagina! É coisa de caixa de banco, de operário sujo de graxa ou de condutor de trem que atrasam nossa vida e geram congestionamentos na cidade. Ou de inglês, francês e italiano que têm a vida ganha e mamam no Estado. Enquanto isso, quem tem consciência de que é um trabalhador e reivindica coletivamente, como muitos bancários, metalúrgicos e metroviários, tem mais chances de obter o que acha justo.
Quando vejo algumas coberturas jornalísticas mal feitas de protestos e greves fico pensando como pessoas que não conseguem se reconhecer como classe trabalhadora podem entender as reivindicações de trabalhadores. O fato é que não somos observadores externos e nem podemos ser. Somos parte desse tecido social, desempenhamos uma função, somos parte da engrenagem, gostemos ou não.
Muitos não se perguntam de onde vem o dissídio. Como uma criança que acha que o leite vem do mercado, pensamos que o reajuste vem do nada, sem ter sido fruto de muito diálogo entre capital e trabalho. Não é irônico que os profissionais que informam sobre e analisam a democracia diariamente não exerçam sua “cidadania profissional”?
A vida de jornalista, deixando de lado o falso glamour, não é fácil. Ainda mais para aqueles que são patrões de si mesmo, não por decisão própria (para empreender algo, por exemplo), mas porque foram empurrados para isso.
Sempre gostei do poema do dramaturgo alemão Bertolt Brecht que tratava da indiferença:
“Primeiro levaram os comunistas,/Mas eu não me importei/Porque não era nada comigo./Em seguida levaram alguns operários,/Mas a mim não me afetou/Porque eu não sou operário./Depois prenderam os sindicalistas,/Mas eu não me incomodei/Porque nunca fui sindicalista./Logo a seguir chegou a vez/De alguns padres,/ Mas como nunca fui religioso,/também não liguei./Agora levaram a mim/E quando percebi,/Já era tarde.”
Andaram pela mesma linha Maiakovski e Niemöller, escrevendo sobre o não fazer nada diante da injustiça para com o outro, até que, enfim, o observador passivo se torna a vítima. Hoje, não é comigo, então que se danem os outros. E quando chegar o amanhã e vierem bater à sua porta?
Ou, lembrando John Donne, poeta inglês, citado em “Por Quem os Sinos Dobram”, de Ernest Hemingway, ao defender que a morte de qualquer homem me diminui, pois sou parte da humanidade: nunca procure saber por quem os sinos dobram. Pois eles dobram por ti.

Por Leonardo Sakamoto